Prezados alunos,

Surpreendo-me com a quantidade de alunos em sala que estão no último ano da faculdade e apresentam um conhecimento que mal beira o superficial a respeito do seu mercado de atuação.

Como docente tenho a obrigação de alertá-los quanto a isso e a primeira impressão que tenho é que vocês estão extremamente crus e despreparados para enfrentar o mercado de trabalho, ainda mais se levarmos em conta suas ambições em função dos cargos que almejam (minhas pequenas enquetes em sala apontam que a maioria demonstra vontade de ao menos chegar a posto de gerência, certo?).

Se vocês estão na faculdade é porque vocês estão dispostos a batalhar por ter um pouco mais, a grande maioria de vocês acorda cedo, rala duro de dia, enfrenta a faculdade a noite e ainda tem que suportar nosso nada amigável sistema de transporte público para atravessar a cidade entre casa, trabalho e faculdade. Casa e trabalho são inevitáveis, todo mundo precisa dedicar parte do seu tempo a isso, mas a faculdade foi uma opção de vocês! Vocês optaram por sacrificar ainda mais o seus dias pesados para poderem crescer intelectualmente e profissionalmente.

Não é fácil optar pelo caminho mais difícil, mas aqueles que optaram pelo caminho da dor, são hoje nossos maiores exemplos de conquista e superação. Vocês já deram o primeiro passo neste sentido. Aceitar o desafio de fazer uma faculdade já é uma vitória, pequena, muito pequena, é verdade, mas toda caminhada começa com o primeiro passo.

Como nem sempre é fácil, deixo em minha mesa um pequeno dizer: “Jovem, a maior derrota da vida é a fuga diante das dificuldades.”

Para tentar dar uma ajuda para vocês, tomei a liberdade de escrever alguns conselhos, os quais embora possam parecer elementares, nem sempre os vejo sendo postos em prática:

1. Leiam Jornais

Dediquem aquela 1h diária que vocês gastam no Facebook para ler um bom jornal (pode ser o site de um bom jornal), escolha um jornal de conhecimentos gerais (O Estado de S. Paulo ou Folha de S. Paulo) e um de negócios (Valor Econômico ou Brasil Econômico) e leiam as principais notícias do dia. Entrem no site do Valor cliquem em busca e coloque palavras como “hotel”, “hotelaria” e “turismo” e direcionem a leitura de vocês para notícias que sejam do vosso interesse.

Esqueçam os jornais e periódicos de notícias pagas e fofocas do setor, eles pouco tem a acrescentar para vocês.

2.Estudem e Trabalhem

Estudem e trabalhem duro, essa é a única forma de se conquistar efetivamente alguma coisa na vida. As teorias neoclássicas da economia comprovam isso.

3. Não contem com o QI

Ouço constantemente as pessoas dizendo que se tivessem um QI (o tal do “Quem Indica”) tudo seria diferente. Me desculpe a franqueza amigo, mas esse QI aí não surge do nada, esquece aquele papo de “um amigo de um conhecido é diretor de tal empresa e vai me indicar…” – isso não existe! O QI só funciona com gente competente, portanto antes de ir atrás de um QI, demonstre que você é capaz.

Sabe aquele seu amiguinho da faculdade que está num super emprego bacana? Então, quando abrir uma vaga para trabalhar com ele, ele não vai te indicar para o chefe dele! Não que ele não seja seu amigo, mas porque ele te conhece e certamente não vai querer queimar o filme dele com o chefe por ter te indicado, não por um acaso esse seu amigo é o cara que fazia todo trabalho do seu grupo e te carregava nas costas durante toda faculdade. – E você acreditando que simplesmente porque ele era seu amigo a mamata ia continuar no ambiente de trabalho? Desculpe nobre aluno, na faculdade você pode até encontrar caras assim, porque lá o seu amigo está pouco se importando se você faz ou não a sua parte, ele faz a dele e só ele tem a ganhar com isso, se você tirou um 10 e ele também, não tem problema, na faculdade todos podem tirar 10 e passar, mas na vida real colega, só os fortes sobrevivem, em um ambiente onde só um aluno pode tirar 10 e quem tira menos de 10 não passa, você tá fora.

Aliás, lembra aquele seu contato que era diretor de uma grande empresa e ia te arranjar uma brecha para trabalhar lá?!… Então se você não está trabalhando lá até hoje, existe um sério risco dele justamente não ter te contratado por saber quem você realmente é.

4. Parem com o mimimi, ajam!

Ninguém vai te dar uma chance, você precisa criá-la! Cuidado com esse papo de que temos que aproveitar as oportunidades, quando alguém diz isso pra mim logo me vem a imagem de um rio com um forte correnteza na minha frente passando um monte de coisas boiando no rio e entre folhagens, tocos e garrafas pet passam caixinhas de oportunidade, basta eu aproveitar quando uma dessas passar, colocar no bolso que eu ficarei rico. Não, isso não existe! As oportunidades são como as pedras, estão em todos os lugares, mas precisam ser lapidadas para serem valorizadas, ou seja, sem o seu trabalho, sem a sua ação, as oportunidades não são nada. E não fique aí parado a espera de um diamante para você lapidar, comece logo esculpindo o que aparecer na sua frente, seja um granito ou um basalto. Não subestime seu trabalho, é a partir daí que você vai ganhar experiência para identificar, aproveitar e lapidar os diamantes lá na frente.

Como dizem os mais velhos, não dá para ruminar sem ter pastado. Parem de reclamar que a vida não te dá oportunidades, as oportunidades são mais abundantes justamente nos ambientes de maior dificuldade, quando tudo está bom, há menos espaço para se aperfeiçoar, melhorar e aprender com os erros. Neste sentido, tratando-se do mercado de turismo e hotelaria, o que não faltam são oportunidades… Portanto, se você insiste em dizer que a vida não te dá oportunidades, ou é porque está tudo bem, ou porque você não sabe aproveitá-las.

5. Agradeçam pelas segundas-feiras de cada semana (xinguem as sextas).

Faça aquilo que você gosta, mas se não der (e nem sempre é possível) aprenda a gostar daquilo que você faz. Aliás, me arrisco dizer que só consegue fazer aquilo que gosta quem aprende a gostar daquilo que faz.

Por fim,

“Antes de fazerem uma crítica procurem pelo menos dois sinceros motivos para elogiar, antes de fazerem um pedido procurem pelo menos dois motivos para agradecer”.

Abraços,

Francisco Burckas

(Esta carta é baseada em um e-mail enviado aos alunos em 19 de abril de 2013)


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O processo de aprendizagem da Contabilidade é algo curioso, no início tudo parece muito complicado e sem sentido, até que de uma hora para outra dá um “click” e tudo parece tão óbvio que não conseguimos mais compreender por que as pessoas têm tanta dificuldade em aprender esse negócio.

Como professor de contabilidade básica, meu maior desafio é justamente de fazer com que os alunos passem a barreira criada entre o complicado e o óbvio. Visando atingir tal objetivo, foi desenvolvido uma vídeo-aula onde procuro expor de modo simples e prático os conceitos da Contabilidade.

Para quem está iniciando no tema, vale a pena conferir.


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Quando a esmola é demais, o santo desconfia – o velho dito popular poderia ser uma ótima ferramenta para escaparmos das “pegadinhas” que aparecem por toda parte, no entanto a desconfiança por si só não nos leva aos fatos (geralmente obscuros) que explicam as ofertas generosas. Tentar entender o que está por trás daquela oferta tentadora é um desafio interessante e nos faz compreender coisas que vão muito além da boa vontade do ofertante.

A esmola – há alguns meses atrás achei que seria um bom negócio trocar o meu carro por um 0km, na época eu havia dinheiro suficiente para comprar um sedan à vista e estava preparado para utilizar o meu poder de comprar como “arma” para barganhar um desconto na caranga. Na loja, a vendedora foi logo sacando suas planilhas de financiamento dizendo que o carro poderia ser pago em 36 parcelas de R$ 1.518,08 (total de R$ 54.650,74, juros de 0,49% a.m.). Taxa de juros mais baixa que o rendimento da poupança?! Isso é uma dádiva! Vou colocar meu dinheiro na poupança, ganhar 0,60% a.m. pelo dinheiro aplicado, pagar 0,49% a.m. de juros do financiamento e ganho 0,11% a.m.!  – Um excelente negócio!

A desconfiança – pergunte para qualquer pessoa em sã consciência sobre o que ela prefere: i. aplicar o dinheiro na poupança e obter rendimentos de 0,6% a.m. ; ou ii.  emprestar o dinheiro para um desconhecido comprar um carro e obter rendimentos de 0,49% a.m.? Neste caso aplicar o dinheiro na poupança, além de ser muito menos arriscado garante retorno ainda maior, portanto por que a montadora estaria disposta a fazer justamente o contrário? É como se eles estivessem me emprestando R$ 49.990 (valor do carro à vista) para eu comprar o carro e eu lhes devolveria o dinheiro pagando juros de 0,49% a.m.).

Os fatos – embora minhas pesquisas (muitas vezes informais) não comprovem os fatos, me permiti tirar algumas conclusões que me parecem muito pertinentes.  Basta uma simples pesquisa na internet para constatar que os preços dos carros no Brasil são muito mais caros que no exterior. Segundo uma das inúmeras reportagens sobre o assunto, o carro citado anteriormente poderia facilmente ser vendido R$ 15.000 mais barato, ou seja, R$ 34.990, portanto, o que a montadora está propondo de modo obscuro é um empréstimo de R$ 34.990 para ser pago 36 “suaves” prestações de R$ 1.518,08, portanto juros de 2,64% a.m. e não os atrativos 0,49% a.m.

A estratégia das montadoras é criar um aumento fictício do preço à vista dos carros, e com isso condicionar um comprador racional a não somente comprar um automóvel, mas também a fazer um financiamento com taxas bastante atrativas.  Não é a toa que os vendedores das concessionárias recebem uma comissão maior quando vendem um automóvel por meio de financiamento. Fica a pergunta: Caberia aqui um indiciamento por prática de venda casada?

Somente esta prática isolada já seria digna de enquadramento desta prática como venda casada (Lei 8.884 / 94, artigo 21º, XXIII – A prática de venda casada configura-se sempre que alguém condicionar, subordinar ou sujeitar a venda de um bem ou utilização de um serviço à aquisição de outro bem ou ao uso de determinado serviço).

Não bastante, nota-se que para que essa prática seja viável é necessário que o preço do automóvel seja muito superior ao “normal” e tratando-se de um mercado de livre concorrência, as montadoras só conseguiriam tal feito de dois modos: i. se todas praticassem políticas similares de preços mantendo-os acima do “normal” e não deixando alternativas para o consumidor pagar mais barato, o que caracterizaria a prática de cartel, crime econômico que deveria ser severamente punido no Brasil; ou ii. se a demanda por automóveis no Brasil estiver muito acima da oferta, ou seja, muita gente querendo comprar e poucos carros no mercado para serem vendidos, gerando uma pressão inflacionária e elevando o preço dos automóveis.

A primeira hipótese soa um pouco conspiracionista, difícil de acreditar que possa existir um pacto de preços envolvendo tantas montadoras no mercado. Eu até gostaria de acreditar na segunda hipótese, mas considerando que recentemente foi noticiado que as montadoras atingiram o nível de estoques mais alto desde 2008, não entendo porque mesmo assim os preços dos automóveis continuam muito acima do “normal”.

Independentemente dos fatos, meu santo anda desconfiado e pensando bem, meu carro nem está tão velho assim, trocar pra que?


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As coisas já não estavam indo tão bem como antes, mas eu nunca acreditei muito nisso, vivia sem ter muita noção das minhas atitudes, foi nesse momento que um amigo meu me apresentou um conhecido: o Aristeu, o gerente da boca.  Era um cara simpático, bem afeiçoado, endinheirado e sempre ligado nas últimas do mercado. Não preciso dizer que em pouco tempo tomei gosto pelo Aristeu.

Pelo menos uma vez por semana eu passava no seu posto de trabalho para trocar umas palavras com ele e mais algumas semanas ela sentiu que poderia oferecer um de seus produtos para eu experimentar. Confesso que no começo eu refuguei, mas ele me disse que era coisa boa e insistiu para que eu experimentasse que eu tinha até 30 dias para pagar.

No começo foi uma sensação gostosa, de liberdade, algo que eu nunca tinha sentido antes, eu estava eufórico, procurava aproveitar ao máximo na noite e com meus amigos. Eu era “o cara” e que nada poderia acontecer comigo.

Algum tempo depois, quando fui pagar o Aristeu, acabei pegando o dobro do que havia pegado antes. Além de pagar depois, estava realmente curtindo aquele negócio e a partir de então, quanto mais eu pegava com o Aristeu, mais eu queria. Invariavelmente, a coisa se tornou uma bola de neve.

Alguns amigos tentavam me alertar para os riscos que eu estava correndo, mas eu queria consumir cada vez mais, menos de um ano depois eu comecei a perceber que eu já estava dominado. Estava sendo consumido por aquilo que antes eu dominava (pelo menos eu achava que sim).

Foi então que perdi meu carro, minha casa e meus amigos, cheguei até a dormir na rua. Já não conseguia mais pagar o Aristeu, que passou a me ameaçar enquanto eu não quitasse minha dívida com ele. E eu sabia que tinha que parar com aquilo, mas no desespero sempre recorria o Aristeu e minha dívida aumentava cada vez mais.

Notei que durante todo esse tempo, Aristeu sabia que não estava fazendo bem para mim, mas a ganância o fez continuar oferecendo para mim algo ruim o suficiente para me levar ao fundo do poço em pouco mais de um ano. Penso até que seja uma lógica burra, pois assim como eu Aristeu vem acabando com a vida de diversos brasileiros e perdendo seus clientes por causa de seu próprio produto.

Na verdade Aristeu não era o gerente da boca, Aristeu era gerente do banco. Seu “produto”? Empréstimos, créditos consignados e títulos de capitalização…


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Nada como o início de um ano novo para colocar em prática tudo aquilo que não nunca tivemos motivação para fazer antes, mas que sabemos que precisa ser feito. Mas sejamos realistas, se você nunca estudou na vida, não é agora que você vai começar, o mesmo vale para aquele regime, a academia e outras atividades as quais nunca lhe foram familiares. Mas que tal começar a ficar rico?… Aposto que essa te interessou né?

Primeiramente não espere que eu lhe entregue a fórmula mágica para ganhar muito dinheiro, mas me proponho a mostrar como podemos gastar de forma consciente e acredite, isso é ainda mais importante do que simplesmente encher o bolso de verdinhas…  Lembre-se que  não faltam novos ricos que se tornarão futuros pobres por não saberem gastar aquilo que ganham.

A verdade é que está todo mundo (ou quase todo mundo) feliz com a economia brasileira! Parece que de uma hora para outra todo mundo ficou rico e feliz mesmo com o PIB brasileiro crescendo abaixo da média mundial. Como isso é possível?… Com raras exceções, o povo brasileiro não ficou mais rico, mas sim com mais crédito, isso quer dizer que embora o povo não tenha o dinheiro de fato, passou a ter acesso à tudo aquilo que o dinheiro pode lhe proporcionar, criando a falsa sensação de riqueza.

Arrisco dizer que o povo brasileiro está tecnicamente falido e ainda não se atentou à isso. Conceituando: a falência técnica de uma empresa ocorre quando os Passivos são maiores que os Ativos. Na vida pessoal é a mesma coisa: está falido todo aquele cuja somatória das dívidas superam o valor de seus bens e com a vida a crédito desenfreada do povo brasileiro, deve haver muita gente falida por aí e ainda nem se deu conta.

Não sou contra o endividamento, desde que seja consciente, ou seja, não faça dívidas para consumir coisas que você nunca mais vai ver. Se for para se endividar, que seja para comprar um bem cujo valor tenda a aumentar no futuro (um imóvel ou um novo negócio, por exemplo), portanto, com raras exceções, carro não é o tipo de bem que convém comprar através de um financiamento, o automóvel, sonho de consumo de 9 a cada 10 brasileiros, é o grande vilão das nossas finanças, além do seu custo de manutenção (seguro, IPVA, manutenção, combustível, etc)  representar em média 20% das despesas anuais, o veículo tende a se desvalorizar brutalmente a cada ano, enquanto a sua dívida para quitá-lo continua lá firme e forte (para não dizer maior), com isso não custa muito para que o se belo veículo 0km seja o principal causador da sua falência técnica.

Se você não quer ser mais um falido, então aproveite 2012 para colocar suas finanças em dia, não gaste o dinheiro que não tem, fuja dos juros, do cheque especial e do crédito fácil. Anote todos seus gastos e receitas e fique sempre de olho na sua situação financeira, não deixe que seu Passivo fique maior que seu Ativo, fuja das tentações consumistas e acima de tudo, tenha disciplina! Assim quando o mundo acabar no final de 2012 você poderá dizer para São Pedro que não deve nada à ninguém e quem sabe garantir um sofazinho velho lá em cima.


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Como saber o seu valor e negociar o seu salário.

– “Quanto você quer ganhar?” A pergunta é simples e corriqueira nas entrevistas de emprego, mas a resposta nem sempre é tão fácil. Para saber quanto você vale não basta somente levar em consideração a intuição e suas ambições; existem diversos fatores que podem influenciar no seu salário justo e que devem ser analisados na hora de saber quanto você vale no mercado. Não existe fórmula mágica e precisa capaz de responder a essa pergunta, mas com poucas variáveis podemos montar um modelo simples e funcional que talvez seja muito útil numa eventual negociação salarial.

Você é uma empresa – trabalha, gera resultados, cresce, assume riscos, investe, gasta e paga suas contas. Deste modo, tomo a liberdade de sugerir que o mesmo modelo de avaliação adotado pelos financistas para saber o valor de mercado de uma empresa pode ser utilizado para se estimar o quanto você vale no mercado.

Tomemos como base um dos modelos mais simples de avaliação de empresas, o modelo de Gordon, que é dado pela seguinte fórmula:

V = FC  X  (1+g)   .
(i – g)

Onde:

V = Valor da empresa (no caso, o seu valor)
FC = Fluxo de Caixa Gerado pela empresa (seu salário)
g = taxa de crescimento esperado para a empresa (o seu crescimento esperado na empresa)
i = taxa de desconto que deve refletir o risco associado ao negócio (risco de se trabalhar nesta empresa)

De acordo com esse modelo o valor de uma empresa depende de três fatores: Fluxo de Caixa gerado, taxa de crescimento e risco. Basta uma análise rápida nos numeradores e nos denominadores para notarmos que tanto o fluxo de caixa quanto a expectativa de crescimento da empresa contribuem de forma significativa para aumentar o seu valor; por outro lado, fluxos de caixas elevados e taxas de crescimento elevadas não justificam um alto valor caso o risco associado também seja alto. Estes são alguns princípios básicos aplicados no processo de avaliação de empresas, mas como podemos aplicá-lo para saber o que responder quando te perguntarem “Quanto você quer ganhar?”.

Primeiramente vejamos quanto você vale: supondo que você ganhe R$ 2.000 por mês em uma empresa que lhe oferece um plano de carreira onde seu salário aumenta em média 10% ao ano e sendo um emprego estável, onde os baixos riscos podem ser equivalentes ao retorno financeiro de um investimento seguro como a poupança (12% a.a. por exemplo) e aplicando o modelo de Gordon, podemos concluir que seu valor atual é de R$ 1.320.000 (um milhão trezentos e vinte mil reais) conforme demonstrado a seguir:

1.320.000 = (2.000 X 12) X (1+10%)   .
(12% – 10%)

* O salário foi multiplicado por 12 meses para que se possa trabalhar com todas variáveis em base anual.

Agora supondo que a nova proposta de emprego seja para uma empresa onde os riscos assumidos são similares ao do seu emprego atual e com poucas oportunidades de crescimento salarial, onde você deverá permanecer muitos anos no mesmo cargo de tal modo que seu salário deverá crescer pouco acima da inflação em decorrência do dissídio coletivo (6% a.a. por exemplo). Supondo ainda que seu valor seja o mesmo, basta voltarmos ao modelo de Gordon para se ter uma base salarial racional que lhe permita saber o quanto você deve ganhar na nova empresa.

FC = V  X   (i – g)   .
(1 + g)

74.716,98 = 1.320.000 X (12% –6%)   .
(1 + 6%)

* Dividindo o salário anual de R$ 74.716,98 em 12 meses, concluímos que o salário equivalente para se trabalhar na nova empresa deve ser de aproximadamente R$ 6.226.

Entendendo as variáveis e sua aplicação

Valor (V) – Embora o seu valor possa mudar ao longo do tempo (e muda), geralmente partimos do pressuposto de que ele é constante, ou seja, na hora de mudar de um emprego para o outro, o seu valor não deveria mudar, exceto quando você esteja sendo remunerado abaixo do que seria justo.

Taxa de Crescimento (g) – Embora o crescimento de uma empresa possa depender bastante do crescimento econômico do país, nada impede que ela cresça além da economia, basta que haja outros fatores como oportunidades de mercado ou a simples melhoria da gestão para que o crescimento da empresa supere a média. E assim como o seu crescimento profissional pode depender diretamente da empresa onde você trabalha, nada impede que você (e o seu salário) cresça dentro dela num ritmo superior ao da própria empresa, basta haver oportunidades na sua área e que você demonstre um desempenho superior aos demais.

Risco (i) – Não existe ganho sem que você assuma risco, inclusive no trabalho. Geralmente, as boas condições de trabalho e a estabilidade no emprego podem representar um baixo risco. E o profissional que se expõe a mais riscos, deverá exigir um salário maior que compense os riscos assumidos. Em geral os servidores públicos, por exemplo, podem até reclamar dos baixos salários, mas dificilmente irão reclamar da instabilidade de seus empregos; já os profissionais liberais como os advogados podem até serem bem remunerados pelos serviços prestados, mas estão mais freqüentemente preocupados com possíveis períodos de vacas magras, quando podem amargurar meses sem receber um honorário.

Fluxo de Caixa (FC) – O investidor aplica recursos financeiros em um negócio pois espera ser rentabilizado pelo fluxo de caixa gerado pela empresa do mesmo modo que o trabalhador dispõe de sua mão-de-obra na expectativa de recebimento do seu salário.

Limitações

Um dos problemas da aplicação do modelo de Gordon está principalmente na atribuição da taxa de crescimento. Quando assumimos uma taxa de crescimento neste modelo, estamos partindo do pressuposto que ela se mantém eternamente. Assim, com um salário de R$ 2.000 e uma taxa de crescimento de 10% ao ano, pode esperar-se que o salário deste mesmo sujeito 20 anos depois seja de mais de R$ 13 mil e após 40 anos passe a faixa dos R$ 90 mil por mês.

Pelo modelo de Gordon fica mais difícil fazermos análises precisas com pagamento de bônus anuais, férias, 13º e com períodos mistos alternados entre crescimento e estabilidade salarial. Além disso, este modelo não permite tirar nenhuma conclusão quando a taxa de crescimento for maior que a taxa de desconto (risco – “i”).

Estes problemas podem ser contornados com a utilização dos princípios do Fluxo de Caixa Descontado, resultando em análises mais precisas, mas que também tornam a avaliação mais complexa (baixe aqui planilha modelo para você calcular o seu salário ideal pelo FCD).

Deste modo, pela sua simplicidade, o modelo de Gordon única e exclusivamente pode apresentar resultados bastante enviesados; no entanto devido justamente a sua simplicidade, fica fácil entendermos por que podemos aceitar ganhar menos em determinadas empresas dependendo do risco e do potencial de crescimento que tivermos.


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Artigo de Luis Fernando Santos – falcao007@gmail.com

É comum escutar algumas celebres frases do tipo “Eu ganho pouco” ou “O que eu ganho não é o suficiente”, mas a pergunta que todos deveriam fazer e não fazem é “Por que eu ganho pouco?”. Simplesmente dizer que ganha pouco e que o salário é baixo é comum para quem costumar gastar mais do que ganha, mas insistindo no título do artigo, “Por que você ganha pouco?”.  Para concluirmos se você realmente ganha pouco é necessário estabelecer alguns parâmetros.

Um dos parâmetros mais comuns é pesquisar o mercado de trabalho. Quanto estão recebendo os profissionais que exercem as mesmas tarefas e tenham as mesmas qualificações que você? Os seus colegas da época da faculdade estão recebendo mais que você? Duas pesquisas básicas e rápidas que podem trazer alguns dados interessantes, se ao final dessa pesquisa você se deparar com o cenário onde “O mercado paga mais e os seus colegas recebem mais” então acredito que chegou a hora de procurar novos ares, novos desafios e revisar o seu currículo, nesses casos um tentativa de reajuste salarial junto ao chefe exige coragem e é válida, pois se você viu que recebe menos do que deveria, nada mais justo que uma conversa amigável.

Outro possível cenário é: “Você recebe de acordo o mercado e seus colegas também recebem o mesmo”, mas mesmo assim você ainda acha que recebe pouco. Neste caso, talvez seja a hora de melhorar o seu currículo com bons cursos, você tem MBA? fala inglês fluente? No mundo globalizado em que vivemos não temos como fugir do inglês, o mundo fala inglês! Tudo bem que o espanhol é caliente, o francês é a língua dos amantes, mas para business é inglês e ponto. Com relação ao MBA é cada vez mais recorrente em conversas do mundo coorporativo, porém os melhores são ministrados em inglês, por tanto não há como procrastinar neste bendito idioma. Se conhecimento não for o seu problema, é possível que a sua estagnação salarial seja decorrente da sua produtividade, tente pensar como se você fosse uma unidade de negócio (UN) da sua empresa, que tipo de UN você seria? Você está gerando valor para a empresa? O que você gera de valor é muito superior ao que você ganha? Então demonstre isso e você será recompensado.

Um terceiro cenário distante, mas possível, é o seguinte: “Você recebe mais que o mercado, e está acima dos seus colegas”. Então, talvez seu caso seja o mais grave, exigindo uma boa dose de estudo e reflexão, pois como é possível você ganhar acima da média e ainda ter a sensação de ganhar pouco? Há duas hipóteses: o descontrole financeiro gerando gastos maiores que a sua receita vai sempre te dar a sensação de baixo salário, portanto é hora de rever seus gastos; outra hipótese menos comum, é a de que você esteja com suas contas sob controle e já tenha uma reserva financeira confortável, mas mesmo assim acha que ganha pouco, acredito que chegou a hora de partir para o empreendedorismo, iniciar um novo negócio, aliando seu conhecimento profissional mais a sua paixão por um determinado assunto e arriscar, estude a fundo a sua empreitada, faça uma boa análise financeira do seu investimento, avaliado o risco e o retorno envolvidos no seu projeto (para tal, o uso da TIR e do VPL são altamente recomendáveis como Métodos de Análise de Investimento) e boa sorte!

E então o que você está esperando para pedir um aumento, aprimorar seus conhecimentos, mostrar produtividade, gastar menos ou simplesmente partir para uma nova empreitada? Você ainda acha que ganha pouco? Só depende de você.

Leia também o artigo “Quanto você vale no mercado?” e aprenda a calcular seu salário justo.


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A degradação do sistema educacional no país me faz cada vez mais repensar sobre a minha crença no tão falado crescimento econômico e social no país. Em seu brilhante artigo “Cruzadas pela Educação”, Ozires Silva já alerta que “nossa população é, em sua maioria, incapaz de entender um texto ou de calcular uma simples porcentagem. Até mesmo a capacidade de pensar e de resolver simples questões de raciocínio já está comprometida nos jovens, de quem dependemos para construir nosso futuro”. Não é difícil encontramos alunos no último ano da faculdade que não sabem sequer fazer uma regra de três (aquela mesmo que você aprendeu, ou ao menos deveria ter aprendido com a tia Marocas na 6ª série!). Mas isso não é relevante, o que me preocupa mesmo é que esse pessoal todo está motivado.

Sim, este pessoal está motivado porque em sua grande maioria foram acostumados a viver num ambiente onde as críticas não são bem vindas e por isso as pessoas as poupam de fazê-las. Pais inseguros são incapazes de dizer um “não” para o filho com medo de perder o seu afeto. Quando um aluno é flagrado colando numa prova, vemos pais chegando ao cúmulo de irem até a escola defenderem seus filhos alegando que eles são esforçados e por isso não merecem ser punidos. Falar a verdade para um filho dói, mas às vezes é necessário.

Como conseqüência de uma vivência imune às críticas, vive-se num mundo de bajulações onde facilmente se criam falsos heróis que nada ou pouco fizeram, mas lá estão: se formando na faculdade, cheios de sonhos e ilusões na vida. São idolatrados pelos parentes, amigos e até professores. Às vezes não sabem sequer fazer um “o” com um copo, mas ninguém é capaz de alertá-los para isso.  Não sabem nada e estão motivados.

Em entrevista para a revista ISTOÉ, Roberto Shinyashiki quando indagado se temos um modelo de gestão que premia pessoas mal preparadas respondeu: “Ele cria pessoas arrogantes, que não têm a humildade de se preparar, que não têm capacidade de ler um livro até o fim e não se preocupam com o conhecimento. Muitas equipes precisam de motivação, mas o maior problema no Brasil é competência. Cuidado com os burros motivados. Há muita gente motivada fazendo besteira. Não adianta você assumir uma função para a qual não está preparado. Fui cirurgião e me orgulho de nunca um paciente ter morrido na minha mão. Mas tenho a humildade de reconhecer que isso nunca aconteceu graças a meus chefes, que foram sábios em não me dar um caso para o qual eu não estava preparado. Hoje, o garoto sai da faculdade achando que sabe fazer uma neurocirurgia. O Brasil se tornou incompetente e não acordou para isso.”

É essa gente incompetente que está proliferando no mercado de trabalho. Quando atingem algum cargo que lhes atribui algum poder se tornam cada vez mais arrogantes e invariavelmente instituem a cultura do “quem sabe faz, quem não sabe manda”. Apenas esquecem que o poder puro simplesmente não lhes atribui autoridade e por isso não é completo, tampouco sustentável. O poder pode ser delegado, a autoridade só se conquista com conhecimento. 

Agora pense em quanta gente você conhece que se gaba tanto do poder que lhes foi atribuído, mas que não tem competência alguma para tal, em geral essa gente pouco ou nada contribuí para o crescimento econômico, social e cultural do país. Enquanto puderem mamam no poder à custa de outrem, sabem que o poder é a única coisa que têm e se o perderem nada serão. Estão cercados de assessores, subalternos e gente que os incentivam, bajulam e os enaltecem como heróis. Do mais alto escalão político do país ao chefe de repartição de uma pequena empresa, não faltam exemplos de burros motivados – é disto que eu tenho medo.


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Segundo Alexandre Tombini, presidente do BC, é hora de poupar, não de consumir.

Será que é tão simples assim?

Não, nós não somos educados o suficiente para entender e “cooperar” com o pedido de Tombini, sempre fomos acostumados a querer mais. Na abundância do ano de 2010 eu comprei meu carro novo e a TV 42” das crianças, agora que vocês me deram condições, eu já ia comprar o meu apartamento quando vem o governo dizer que estou gastando muito e pede para maneirar? É como pedir para a criança devolver o doce depois dela ter dado a primeira mordida.

Até agora a única pessoa que tinha reclamado era o S. Sérgio, carteiro lá do bairro, que de uma hora para outra viu o peso da sua bolsa dobrar de tantos boletos, carnês e faturas que ele passou a entregar em toda vizinhança.

Há poucos meses atrás vi o governo enaltecer tanto o poder de compra do povo brasileiro que até angariou votos para a sua candidata! Agora que nós estávamos acreditando na continuidade deste conto de fadas vocês me aparecem com o bicho papão?

Em 2009 o barbudo manda gastar, agora seus sucessores mandam poupar, cada hora vocês pedem uma coisa! Já nem sei mais o que é pra eu fazer com o pouco dinheiro que me resta! Assim não é possível! Será que não dá para vocês se planejarem direito?

Na boa, até posso gastar menos, mas você bem que podia ajudar também né? Poxa, é verdade que comprei um carro novo, TV, etc, mas acho que o Sr. Governo gastou muito mais, não? Porque verdade seja dita, nos últimos anos o senhor aumentou muito mais os gastos do que os investimentos e agora eu é que tenho que poupar?

Afinal, bem sabemos que em relação ao ano passado, este ano vocês já gastaram R$ 13,2 bilhões a mais com salários dos seus colegas de trabalho ao mesmo tempo em que reduziram R$ 50 bilhões dos investimentos.

Acho que estou começando a entender, deve ser o velho lance do “faça o que eu falo, mas não faça o que eu faço”.


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Eles não querem vir

Lembro-me quando em 1998 estive no Canadá fazendo um curso de inglês e pude notar a completa ignorância de alguns canadenses que viam o Brasil como um país selvagem e cheio de índios, cheguei ao absurdo de ouvir um professor comentar que no Brasil deveríamos ter cuidado ao sair na rua para não sermos atacados por leões (neste caso, ironicamente respondi que isso só seria possível se o leão fugisse do zoológico). É claro que haviam os mais esclarecidos que também sabiam que o Brasil era o país do futebol, do samba, carnaval e das mulheres seminuas com suas fartas nádegas a rebolar pelas ruas.

Pouco mais de 10 anos depois, após ter morado quase um ano na Europa, onde convivi com diversas etnias, notei que a imagem que os estrangeiros possuem sobre o Brasil continua distorcida, ou melhor, incompleta. Por um lado, já não somos mais taxados como um país cheio de índios a fugir dos leões selvagens (o que já é um avanço) e continuamos sendo vistos como o país do futebol e carnaval; por outro lado abrimos espaço para um novo rótulo que hoje prevalece na opinião dos gringos: o país da favela e da violência, sobretudo as retratadas pelos filmes Cidade de Deus e Tropa de Elite.

Não há como negar, o sucesso dos filmes de Fernando Meirelles e José Padilha contribuiu imensamente para a assimilação estrangeira da “nova” realidade brasileira pautada na violência urbana, no tráfico de drogas e nas favelas. Mas tal fato não nos permite culpar a produção dos filmes pela nossa imagem transmitida lá fora. Há dois problemas e para cada qual um culpado diferente: o primeiro, de cunho social é a nossa dura realidade que não pode ser negada e que José Padilha apresenta de forma brilhante quem é o principal culpado; o segundo é a forma como somos divulgados lá fora e neste aspecto o país deve ser muito hábil para não deixar com que as imagens divulgadas nas telas de cinema sobressaiam e se tornem quase que a única imagem do Brasil para o estrangeiro.

Para enfrentar problemas como este, desde 2003 a Embratur está incumbida pela promoção dos serviços e produtos turísticos no mercado internacional. De lá para cá notamos que o turismo internacional no Brasil só apresentou crescimento até 2005 quando o Real estava desvalorizado e facilitava a entrada de turistas no país, já entre 2005 e 2009, período em que o dólar se apresentou mais estável, a entrada de turistas estrangeiros caiu 10% enquanto a média mundial apresentou um crescimento de 3,28% no mesmo período.

Ainda em 2003 o Ministério do Turismo lançou o Plano Nacional do Turismo que previa para até 2007, criar 1,2 milhões de empregos e caso as condições de mercado fossem ótimas esperava-se aumentar para 9 milhões o número de turistas estrangeiros no país.

Quem dera se tal otimismo tivesse se concretizado, entretanto, conforme o World Travel & Turism Council, neste período o turismo nacional criou de forma direta e indireta menos de 150 mil empregos, e se considerados somente os empregos diretos, foram extintos aproximadamente 20 mil postos de trabalho. Até hoje o total de turistas estrangeiros vindos ao Brasil em um ano não ultrapassou o patamar dos 5 milhões, 30% a menos em relação às expectativas menos otimistas do Ministério do Turismo que esperava atingir 7,5 milhões de turistas caso a conjuntura fosse somente boa e não ótima. Hoje o país recebe algo em torno de 5 milhões de visitantes e ocupa a 51ª posição no ranking mundial, pouco acima da Argentina e logo abaixo da Romênia, Bielorrússia e Índia, já Russia e China recebem respectivamente 22 milhões e 132 milhões de turistas por ano. Recentemente o Ministério do Turismo divulgou um documento atualizando as projeções de entrada de turistas estrangeiros dividido em três cenários, no mais otimista espera-se atingir em 2014 cerca de 7,21 milhões de turistas estrangeiros, já no cenário mais pessimista são esperados 5,72 milhões e numa expectativa mais moderada 6,37 milhões.

Neste contexto, a Copa do mundo em 2014 e as Olimpíadas em 2016 no Rio de Janeiro podem ser fatores fundamentais para o aumento da demanda turística no país. Vale lembrar que historicamente, países que recebem alguns desses eventos esportivos apresentaram em média um crescimento de 4,2% na demanda turística internacional no ano do evento e mantendo o crescimento praticamente estável no ano subseqüente. Dentro dessa perspectiva, pessoalmente acredito que sequer em 2016 atinjamos marca de 7 milhões de turistas estrangeiros tão facilmente.

Sediar os dois maiores eventos esportivos do mundo nos próximos seis anos certamente aumentará de forma pontual o turismo no país. Tais eventos sozinhos não garantem a continuidade do crescimento turístico no país, mas são sem dúvidas uma das melhores vitrines que temos para expor os nossos produtos, chamarmos a atenção do mundo para os nossos atrativos e alavancarmos de vez o turismo no Brasil. Neste contexto é importante que a Embratur realize um trabalho intenso na divulgação do Brasil no exterior, principalmente no que concerne a reversão do estigma favela/violência.

Ainda assim, para desenvolvermos o turismo no país, não basta somente trabalhar para melhorar a imagem retratada lá fora, aliás, de todos os problemas a serem enfrentados, este é talvez o menor. O Brasil sofre de sérios problemas de infra-estrutura, principalmente no que tange o setor de transportes. O gargalo do setor logístico afeta não só o turismo como toda a economia nacional, só no agronegócio, estima-se que mais de US$ 5 bilhões são perdidos devido à infra-estrutura logística extremamente ineficiente.

Infra-Estrutura

Como podemos querer que o turismo nacional se desenvolva se não oferecemos o mínimo de infra-estrutura logística para os turistas? Os aeroportos estão sucateados, as rodovias federais se perdem nos buracos da incompetência, os portos não suportam a demanda, sem contas as ferrovias e hidrovias que passam totalmente despercebidas quando falamos de sistemas de transporte no Brasil. Com essa estrutura tão precária, fica fácil entender porque não recebemos nem 5 milhões de turistas estrangeiros por ano.

AEROPORTOS

O “apagão” logístico começa já nos aeroportos, principal porta de entrada dos turistas estrangeiros.  Conforme relatório apresentado pelo IPEA, em horários de pico os principais aeroportos do país já são insuficientes para atender a demanda.  Guarulhos, a principal porta de entrada de turistas estrangeiros no país encabeça o ranking de demanda não atendida, a diferença entre os pedidos de pouso e decolagem e a sua capacidade de atendimento chega a 12 vôos em horário de pico.

Congonhas vem logo atrás, o disputadíssimo aeroporto localizado na zona sul de São Paulo chega a receber 34 pedidos de pouso e decolagem quando sua oferta é de apenas 24. Recentemente, em uma viagem à Belo Horizonte saindo de Congonhas, dormi assim que o avião começou a taxiar, ao acordar uma hora depois, vi o avião em solo e supus que já havia chagado na capital mineira. Engano meu, sequer havíamos saído de São Paulo, tamanha era a fila de pousos e decolagens. Mais um pouco já valerá mais a pena viajar de ônibus. Há mais de 25 anos, meu primo quando era pequeno dizia que os aviões iam mais rápido porque no céu não tem semáforo e hoje já vemos congestionamento no próprio aeroporto.

O Aeroporto de Brasília é uma vergonha nacional, não compreendo como a capital do país base dos três poderes, possui um aeroporto naquelas condições, a começar pela sala de embarque que por si só já apresenta suas condições lastimáveis.

Se levarmos a sério o ditado popular “a primeira impressão é a que fica”, a situação piora, primeiramente porque nenhum aeroporto do país está interligado com um sistema público de transporte metroviário minimamente decente, deste modo, o cidadão que acaba de chegar ao país não tem outra opção a não ser pegar um táxi. Se for em Guarulhos, já são no mínimo R$ 100 desembolsados logo na chegada ao país, sem contar o trânsito na chegada a São Paulo e a “bela vista” para o rio Tietê. Chegando ao Galeão, o cidadão vai pagar um pouco menos no taxi, entretanto ao sair do aeroporto já poderá contemplar a favela que margeia a linha vermelha; creio não ser das melhores recepções que um turista estrangeiro pode ter, ainda mais se ele se deparar com um taxista malandro daqueles que andam 20 quilômetros para dar a volta num quarteirão.

FERROVIAS

O sistema de transporte ferroviário no Brasil é, em minha opinião, um dos mais vergonhosos (para não dizer ridículos) que conheço no mundo. Para mim é inconcebível que um país como o Brasil, com a 8ª maior economia do mundo tenha uma malha ferroviária de somente 29,7 mil quilômetros (conforme matéria da Super Interessante), o equivalente a malha ferroviário do Japão, isso porque 1/3 de toda a malha foi construída nos tempos de D. Pedro II, graças às empreitadas do Barão de Mauá. Não é a toa que num país de dimensões continentais exista apenas uma linha de longa distância para o transporte de passageiros ligando Vitória a Belo Horizonte.

Hoje vejo o governo falando de “trem bala”, embora a idéia para mim não seja de todo mal, me soa até como piada; não sabem sequer fritar um ovo e querem preparar um Foie Gras.

O que precisamos é de trens nos principais pólos metropolitanos ligando de forma eficiente os pontos turísticos de todo o entorno. O Turismo poderia se desenvolver muito mais se houvessem, por exemplo, trens ligando São Paulo a baixada santista, Campinas, Atibaia, Serra Negra, Águas de Lindóia, Campos do Jordão, Brotas, Águas de São Pedro, Vale do Ribeira (PETAR). Imaginem em Minas Gerais se as cidades históricas fossem interligadas por uma malha ferroviária por onde passassem trens de passageiros?

Não conheço uma pessoa que viajou para a Europa a turismo e não tenha pegado um trem sequer. Quando trabalhava na recepção de um hotel, recebi certa vez um casal da Suécia que não conseguiam entender como não havia um trem que ligasse São Paulo a Curitiba.

Os trens na Europa são ótimas opções de viagem, são baratos, rápidos, oferecem uma boa visão da paisagem, além de, na maioria dos casos, chegar bem próximo do destino final, uma vez que as estações de trem não costumam ser afastadas do centro das cidades assim como grande parte dos aeroportos.

Tudo poderia ser diferente se Juscelino Kubitschek não tivesse optado por priorizar o transporte rodoviário em detrimento do ferroviário, política esta que parece se estender até hoje. Ora, se estamos falando em cinco décadas de priorização do transporte rodoviário, qualquer gringo desavisado poderia pressupor que por ter deixado de investir em outros sistemas viários, o país deve ter hoje um complexo e moderno sistema rodoviário.

RODOVIAS

A verdade é que não precisa muito esforço para saber que nem sempre prioridade é sinônimo de melhoria, sobretudo quando falamos de política em terras tupiniquins. Segundo pesquisa da CNT, 86,5% das rodovias brasileiras possuem algum tipo de problema.

Com exceção do estado de São Paulo que teve mais de 61% da sua malha rodoviária avaliada com ótima, todos os estados possuem algum tipo de problema em mais de 70% das suas estradas.

O mau estado de conservação das rodovias brasileiras agrava não só a segurança dos usuários, mas também o conforto e a economia do país como um todo, só na agricultura estima-se que por ano são perdidos mais de US$ 5 bilhões em grãos que ficam pelas estradas.

Para o turista europeu em geral, o fato de ter que utilizar ônibus rodoviários para se deslocar de uma cidade à outra já lhe causa estranhamento e desconforto, mesmo que seja em estradas com ótimo estado de conservação. Para este turista, ter que viajar de ônibus pelo interior do nosso país deve soar no mínimo como uma experiência exótica.

OK, verdade seja dita. Das experiências que tive de viajar de ônibus na Europa, notei que se as rodovias extremamente bem conservadas proporcionam uma viagem tranqüila e confortável, não podemos dizer o mesmo dos ônibus utilizados pelas empresas de transporte; nas minhas viagens me deparei com veículos apertados e bastante desconfortáveis para viagens de mais de 1h. Opções de viagem em ônibus convencionais, semi-leito e leito, são privilégios que lá não se encontram com tanta abundância como aqui. Talvez isso explique porque um europeu não se sinta tão à vontade para encarar 6 horas de viagem de “busão” entre Rio e São Paulo, por exemplo.

O problema do transporte rodoviário é que por melhor que seja o veículo, o usuário sempre estará sujeito ao tráfego intenso nas estradas, que nos feriados ficam ainda pior. Apenas para ilustra algumas situações pessoais, já encarei aberrações como 6 horas para ir de São Paulo à Maresias (180km – média de 30km/h) e 6 horas para ir de Niterói à Arraial do Cabo (135km – média de 22,5km/h) ambas as vezes no Carnaval. Poderia elencar aqui mais dezenas de congestionamentos enfrentados e certamente o(a) leitor(a) deve ter algumas dezenas para contar, o que indica que as rodovias não estão preparadas para suportar tráfegos mais intensos em decorrência dos feriados.

O fato é que definitivamente, a priorização do transporte rodoviário não tem se mostrado uma política eficaz e muito menos eficiente. Em suma, sem aeroportos e muito menos ferrovias, a opção pelas rodovias não pode ser praticamente a única alternativa de transporte para os turistas e mesmo assim, ainda estamos muito longe de poder oferecer um serviço seguro e de qualidade para o usuário.

Por que eu acreditaria no Brasil?

A imagem distorcida com que o Brasil tem sido representado lá fora, bem como os sérios problemas de infra-estrutura, representam alguns dos principais gargalos do turismo no país e o que mais me deixa desiludido é que 90% destes problemas dependem primordialmente do poder público. O mesmo que escolhe os seus ministros não por meritocracia, mas por meros interesses políticos. Poder público que destina menos de 0,2% do seu orçamento para o turismo, setor responsável por movimentar 5,9% do PIB, enquanto destina 0,21% deste orçamento somente para a câmara dos deputados que pouco ou quase nada agrega para o aumento do PIB do país.

Diante deste cenário não é de se espantar quando alguém diz que não acredita no turismo no Brasil. Agora você leitor(a) deve estar se perguntando porque então eu resolvi criar um site para falar de turismo, hotelaria e finanças. Paixão? Também, mas não podemos negar o potencial turístico que este país possui e que ainda tem muito para ser explorado e desenvolvido.  Posso não acreditar nos políticos, mas acredito no Brasil e na educação como principal (para não dizer único) meio de impulsionarmos de vez o setor turístico e hoteleiro no país.


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