Como saber o seu valor e negociar o seu salário.

– “Quanto você quer ganhar?” A pergunta é simples e corriqueira nas entrevistas de emprego, mas a resposta nem sempre é tão fácil. Para saber quanto você vale não basta somente levar em consideração a intuição e suas ambições; existem diversos fatores que podem influenciar no seu salário justo e que devem ser analisados na hora de saber quanto você vale no mercado. Não existe fórmula mágica e precisa capaz de responder a essa pergunta, mas com poucas variáveis podemos montar um modelo simples e funcional que talvez seja muito útil numa eventual negociação salarial.

Você é uma empresa – trabalha, gera resultados, cresce, assume riscos, investe, gasta e paga suas contas. Deste modo, tomo a liberdade de sugerir que o mesmo modelo de avaliação adotado pelos financistas para saber o valor de mercado de uma empresa pode ser utilizado para se estimar o quanto você vale no mercado.

Tomemos como base um dos modelos mais simples de avaliação de empresas, o modelo de Gordon, que é dado pela seguinte fórmula:

V = FC  X  (1+g)   .
(i – g)

Onde:

V = Valor da empresa (no caso, o seu valor)
FC = Fluxo de Caixa Gerado pela empresa (seu salário)
g = taxa de crescimento esperado para a empresa (o seu crescimento esperado na empresa)
i = taxa de desconto que deve refletir o risco associado ao negócio (risco de se trabalhar nesta empresa)

De acordo com esse modelo o valor de uma empresa depende de três fatores: Fluxo de Caixa gerado, taxa de crescimento e risco. Basta uma análise rápida nos numeradores e nos denominadores para notarmos que tanto o fluxo de caixa quanto a expectativa de crescimento da empresa contribuem de forma significativa para aumentar o seu valor; por outro lado, fluxos de caixas elevados e taxas de crescimento elevadas não justificam um alto valor caso o risco associado também seja alto. Estes são alguns princípios básicos aplicados no processo de avaliação de empresas, mas como podemos aplicá-lo para saber o que responder quando te perguntarem “Quanto você quer ganhar?”.

Primeiramente vejamos quanto você vale: supondo que você ganhe R$ 2.000 por mês em uma empresa que lhe oferece um plano de carreira onde seu salário aumenta em média 10% ao ano e sendo um emprego estável, onde os baixos riscos podem ser equivalentes ao retorno financeiro de um investimento seguro como a poupança (12% a.a. por exemplo) e aplicando o modelo de Gordon, podemos concluir que seu valor atual é de R$ 1.320.000 (um milhão trezentos e vinte mil reais) conforme demonstrado a seguir:

1.320.000 = (2.000 X 12) X (1+10%)   .
(12% – 10%)

* O salário foi multiplicado por 12 meses para que se possa trabalhar com todas variáveis em base anual.

Agora supondo que a nova proposta de emprego seja para uma empresa onde os riscos assumidos são similares ao do seu emprego atual e com poucas oportunidades de crescimento salarial, onde você deverá permanecer muitos anos no mesmo cargo de tal modo que seu salário deverá crescer pouco acima da inflação em decorrência do dissídio coletivo (6% a.a. por exemplo). Supondo ainda que seu valor seja o mesmo, basta voltarmos ao modelo de Gordon para se ter uma base salarial racional que lhe permita saber o quanto você deve ganhar na nova empresa.

FC = V  X   (i – g)   .
(1 + g)

74.716,98 = 1.320.000 X (12% –6%)   .
(1 + 6%)

* Dividindo o salário anual de R$ 74.716,98 em 12 meses, concluímos que o salário equivalente para se trabalhar na nova empresa deve ser de aproximadamente R$ 6.226.

Entendendo as variáveis e sua aplicação

Valor (V) – Embora o seu valor possa mudar ao longo do tempo (e muda), geralmente partimos do pressuposto de que ele é constante, ou seja, na hora de mudar de um emprego para o outro, o seu valor não deveria mudar, exceto quando você esteja sendo remunerado abaixo do que seria justo.

Taxa de Crescimento (g) – Embora o crescimento de uma empresa possa depender bastante do crescimento econômico do país, nada impede que ela cresça além da economia, basta que haja outros fatores como oportunidades de mercado ou a simples melhoria da gestão para que o crescimento da empresa supere a média. E assim como o seu crescimento profissional pode depender diretamente da empresa onde você trabalha, nada impede que você (e o seu salário) cresça dentro dela num ritmo superior ao da própria empresa, basta haver oportunidades na sua área e que você demonstre um desempenho superior aos demais.

Risco (i) – Não existe ganho sem que você assuma risco, inclusive no trabalho. Geralmente, as boas condições de trabalho e a estabilidade no emprego podem representar um baixo risco. E o profissional que se expõe a mais riscos, deverá exigir um salário maior que compense os riscos assumidos. Em geral os servidores públicos, por exemplo, podem até reclamar dos baixos salários, mas dificilmente irão reclamar da instabilidade de seus empregos; já os profissionais liberais como os advogados podem até serem bem remunerados pelos serviços prestados, mas estão mais freqüentemente preocupados com possíveis períodos de vacas magras, quando podem amargurar meses sem receber um honorário.

Fluxo de Caixa (FC) – O investidor aplica recursos financeiros em um negócio pois espera ser rentabilizado pelo fluxo de caixa gerado pela empresa do mesmo modo que o trabalhador dispõe de sua mão-de-obra na expectativa de recebimento do seu salário.

Limitações

Um dos problemas da aplicação do modelo de Gordon está principalmente na atribuição da taxa de crescimento. Quando assumimos uma taxa de crescimento neste modelo, estamos partindo do pressuposto que ela se mantém eternamente. Assim, com um salário de R$ 2.000 e uma taxa de crescimento de 10% ao ano, pode esperar-se que o salário deste mesmo sujeito 20 anos depois seja de mais de R$ 13 mil e após 40 anos passe a faixa dos R$ 90 mil por mês.

Pelo modelo de Gordon fica mais difícil fazermos análises precisas com pagamento de bônus anuais, férias, 13º e com períodos mistos alternados entre crescimento e estabilidade salarial. Além disso, este modelo não permite tirar nenhuma conclusão quando a taxa de crescimento for maior que a taxa de desconto (risco – “i”).

Estes problemas podem ser contornados com a utilização dos princípios do Fluxo de Caixa Descontado, resultando em análises mais precisas, mas que também tornam a avaliação mais complexa (baixe aqui planilha modelo para você calcular o seu salário ideal pelo FCD).

Deste modo, pela sua simplicidade, o modelo de Gordon única e exclusivamente pode apresentar resultados bastante enviesados; no entanto devido justamente a sua simplicidade, fica fácil entendermos por que podemos aceitar ganhar menos em determinadas empresas dependendo do risco e do potencial de crescimento que tivermos.

Comentários

There is one comment for this post.

  1. karla barbosa on julho 5, 2011 3:50 am

    Faz sentido, aliás bem inteligente. Não entendí a tal fórmula simples….
    Mas a teoria é muito boa.

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