A degradação do sistema educacional no país me faz cada vez mais repensar sobre a minha crença no tão falado crescimento econômico e social no país. Em seu brilhante artigo “Cruzadas pela Educação”, Ozires Silva já alerta que “nossa população é, em sua maioria, incapaz de entender um texto ou de calcular uma simples porcentagem. Até mesmo a capacidade de pensar e de resolver simples questões de raciocínio já está comprometida nos jovens, de quem dependemos para construir nosso futuro”. Não é difícil encontramos alunos no último ano da faculdade que não sabem sequer fazer uma regra de três (aquela mesmo que você aprendeu, ou ao menos deveria ter aprendido com a tia Marocas na 6ª série!). Mas isso não é relevante, o que me preocupa mesmo é que esse pessoal todo está motivado.

Sim, este pessoal está motivado porque em sua grande maioria foram acostumados a viver num ambiente onde as críticas não são bem vindas e por isso as pessoas as poupam de fazê-las. Pais inseguros são incapazes de dizer um “não” para o filho com medo de perder o seu afeto. Quando um aluno é flagrado colando numa prova, vemos pais chegando ao cúmulo de irem até a escola defenderem seus filhos alegando que eles são esforçados e por isso não merecem ser punidos. Falar a verdade para um filho dói, mas às vezes é necessário.

Como conseqüência de uma vivência imune às críticas, vive-se num mundo de bajulações onde facilmente se criam falsos heróis que nada ou pouco fizeram, mas lá estão: se formando na faculdade, cheios de sonhos e ilusões na vida. São idolatrados pelos parentes, amigos e até professores. Às vezes não sabem sequer fazer um “o” com um copo, mas ninguém é capaz de alertá-los para isso.  Não sabem nada e estão motivados.

Em entrevista para a revista ISTOÉ, Roberto Shinyashiki quando indagado se temos um modelo de gestão que premia pessoas mal preparadas respondeu: “Ele cria pessoas arrogantes, que não têm a humildade de se preparar, que não têm capacidade de ler um livro até o fim e não se preocupam com o conhecimento. Muitas equipes precisam de motivação, mas o maior problema no Brasil é competência. Cuidado com os burros motivados. Há muita gente motivada fazendo besteira. Não adianta você assumir uma função para a qual não está preparado. Fui cirurgião e me orgulho de nunca um paciente ter morrido na minha mão. Mas tenho a humildade de reconhecer que isso nunca aconteceu graças a meus chefes, que foram sábios em não me dar um caso para o qual eu não estava preparado. Hoje, o garoto sai da faculdade achando que sabe fazer uma neurocirurgia. O Brasil se tornou incompetente e não acordou para isso.”

É essa gente incompetente que está proliferando no mercado de trabalho. Quando atingem algum cargo que lhes atribui algum poder se tornam cada vez mais arrogantes e invariavelmente instituem a cultura do “quem sabe faz, quem não sabe manda”. Apenas esquecem que o poder puro simplesmente não lhes atribui autoridade e por isso não é completo, tampouco sustentável. O poder pode ser delegado, a autoridade só se conquista com conhecimento. 

Agora pense em quanta gente você conhece que se gaba tanto do poder que lhes foi atribuído, mas que não tem competência alguma para tal, em geral essa gente pouco ou nada contribuí para o crescimento econômico, social e cultural do país. Enquanto puderem mamam no poder à custa de outrem, sabem que o poder é a única coisa que têm e se o perderem nada serão. Estão cercados de assessores, subalternos e gente que os incentivam, bajulam e os enaltecem como heróis. Do mais alto escalão político do país ao chefe de repartição de uma pequena empresa, não faltam exemplos de burros motivados – é disto que eu tenho medo.

Comentários

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  1. Antonio Teixeira on maio 16, 2011 12:44 pm

    Perfeito! Impressionante o medo que as pessoas tem de ter uma opinião, de emitir um comentário crítico. Ou melhor, o medo que as pessoas têm de escutar algo do tipo. O mundo, ao invés de criar gente inteligente, cria cada vez mais gente burra e medrosa.

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